Copom reduz Selic para 10,50% e deixa futuro aberto




O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu nesta quarta-feira reduzir a Selic em 0,50 ponto percentual, para 10,50 por cento ao ano. REUTERS/Bruno Domingos

Por Tiago Pariz e Alonso Soto
BRASÍLIA, 18 Jan (Reuters) - Em seu primeiro encontro do ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu nesta quarta-feira reduzir a Selic em 0,50 ponto percentual, para 10,50 por cento ao ano. Trata-se do quarto corte seguido dessa magnitude, em um movimento iniciado em agosto passado, e amplamente esperado pelo mercado.
"Ao tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012", informou o Copom ao anunciar a decisão, repetindo o comunicado de sua última reunião.
Desde agosto passado o Copom vem reduzindo a Selic em 0,50 ponto percentual, somando agora um queda de 2 pontos percentuais, para não deixar a economia esfriar. É a mais baixa taxa desde junho de 2010, quando estava em 10,25 por cento.
A argumentação básica tem sido de que o cenário internacional, sobretudo por conta das turbulências na Europa, é desinflacionário para o Brasil. Isso porque, com as grandes economias na região ainda patinando, a demanda mundial acaba perdendo força, com consequências para o Brasil.
Pesquisa da Reuters mostrou que todos os 31 analistas consultados previam um corte de 0,50 ponto da Selic agora. No entanto, não havia consenso sobre os próximos passos.
Para o fim de 2012, a maioria estimou que a Selic ficaria em 9,50 por cento, com mais quedas de 0,50 ponto percentual cada nas reuniões seguintes do Copom, em março e abril. Mas as previsões variaram de 9 a 11 por cento no final do ano.
A repetição do comunicado pelo Copom nesta quarta-feira, segundo especialistas, deixa as portas abertas para os próximos passos de política monetária. As previsões são de que, no encontro de março, outro corte de 0,50 ponto percentual na Selic deve ocorrer.
"Ele (BC) não quer se amarrar com a possibilidade de encerrar esse ciclo de afrouxamento monetário antes", afirmou a economista e sócia da consultoria Tendências Alessandra Ribeiro, para quem, em abril, a Selic atinge 9,50 por cento e fica em assim até o final do ano.
"E por quê? Tem duas questões: primeiro o cenário internacional, que ainda continua volátil e incerto, e o segundo ponto que é crucial para ele é o ritmo de recuperação da atividade econômica", acrescentou Alessandra.
O Copom publica a ata dessa reunião, com mais detalhes sobre a decisão, na próxima semana.
RISCOS
Nos últimos tempos, a atividade brasileira tem dado sinais de força, o que poderia aumentar a possibilidade de mais pressão inflacionária. Exemplo é o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do PIB e divulgado antecipadamente na última segunda-feira, que cresceu 1,15 por cento em novembro ante outubro. A expectativa de economistas consultados pela Reuters era de uma alta de 0,85 por cento no período.
O próprio BC já havia mostrado uma luz amarela para inflação. Ao divulgar o Relatório Trimestral de Inflação em dezembro, o diretor de Política Monetária do BC, Carlos Hamilton, afirmou que um cenário de mais recuperação econômica na segunda metade do ano é "compatível" com mais inflação para o início de 2013. Por isso, foi claro ao afirmar que, se for necessário, a taxa básica de juro pode ser elevada.
O economista da Global Financial Advisor, Miguel Daoud, afirmou que o BC tomou uma decisão arriscada ao reduzir o juros por apostar num efeito desinflacionário da crise internacional de longa duração. "É uma aposta de risco que ele não deveria fazer", afirmou, acrescentando que a alta dos preços é instigada por serviços e alimentação, que têm tido efeitos persistentes.
A meta de inflação do governo para este e o próximo ano é de 4,5 por cento pelo IPCA, com margem de dois pontos percentuais para mais ou menos. Em 2011, o indicador bateu na trave, mas acabou ficando dentro do objetivo ao encerrar exatamente em 6,50 por cento.
AJUSTE FISCAL
Para dar fôlego à manutenção do corte dos juros e evitar um novo surto inflacionário como visto entre o fim de 2010 e começo de 2011, segundo especialistas, o governo precisa continuar demonstrando comprometimento com o rigor fiscal.
"O que vai definir se o juro vai para 9,5 por cento é a questão fiscal. Se o governo demonstrar de fato disposição para apertar os gastos, a gente vai terminar o ano com juro de um dígito", afirmou o economista-chefe da Prosper Corretora, Eduardo Velho.
A discussão dentro do governo agora é sobre o tamanho do corte no Orçamento neste ano para garantir que meta do superávit primário -economia feita pelo setor público para pagamento de juros- seja alcançada em sua totalidade de 139,8 bilhões de reais neste ano, o que representa 3,1 por cento do Produto Interno Bruto (PIB).
(Com reportagem adicional de Silvio Cascione, em São Paulo)

Postar um comentário

0 Comentários