Bom Jardim - PE - A Minha Terra Natal

por Ana de Castro Peixoto (Nanete)*


É noite! Sentada em uma cadeira de balanço , contemplo as estrelas
que cintilam no céu, e me vem um desejo louco de rever mina terra natal, terra que há quatro anos deixei pensando encontrar algo que fizesse quebrar a
monotonía de uma vida de interior, vida sem atrativos, pois que minha pequena
cidade nada tinha que oferecer além de suas festas anuais e tradicionais, suas
eleições barulhentas e seus mexericos naturais de toda cidade pequena. E eu
sentía o anseio natural em toda mulher , de divertimentos, de conhecer outros
lugares, onde os días não fossem a
cópia exata de outros dias passados. Sim!...encontrei em parte o que
ambicionava, pois meus dias já têm uma razão de ser, pelo trabalho que me
absorve, e pelas mil distrações que neste belo Recife não faltam. Mas, estranho
contraste da natureza humana, gosto de sonhar com o passado, em noites em que me
sinto solitária, sonhar com o passado naquele torrão natal que tanta
vontade tinha de deixar, e que
ainda hoje, depois de tantos anos não pude
esquecer.

Bom Jardím que feitiço tens com tuas casas humildes, teu povo
pacato, teu rio tortuoso, tuas ladeiras íngremes, e teus campos
verdejantes.

Não sei se é só para mim que tens estes atrativos. Penso que não,
pois quantos de teus filhos cultos e inteligentes, e em boas condições
financeiras que poderiam desfrutar os divertimentos que o dinheiro pode
proporcionar, e que não tens para oferecer, te preferem apezar de tua monotonía,
monotonía esta que reside no teu encanto, e que eles temem deixar, sabendo
de antemão que é inútil lutar contra ti, contra teu encanto de mulher bela e
volutuosa, que mesmo de longe estende seus braços feiticeiros prendendo os que
se afastam dela.

E é com esse feitiço, essa modestia que me deixas sonhadora: presa
de ti, num elo invisivel que em vão tento quebrar e que a medida que os días
passam mais se fortalece dentro de mim. Bom Jardim, que saudades me vêm
agora daqueles dias passados em teu convivio , da casa em que nascí, de tuas
serras que gostava de contemplar em tarde chuvosas, quando ficavam em uma
semi-cerração ou a noite batidas pelo luar. Quanta poesia e quanta doçura
emanavam de ti. Se nesse tempo gostava de ver outros lugares, hoje que estou
longe de ti pela distancia, sinto vontade de as rever, não para sonhar
banalidades, e sim para me extasiar de ti, de tua calma de tua beleza poética de
que és tão rica.

Nestas linhas humildes, porém sinceras deixo expressa toda minha
admiração , para ti terra pequena, jóia não lapidada para os que não sabem te
compreender, mas que para mim tens o valor do mais puro
brilhante.

Recife, 24 de novembro de 1953.


*Ana de Castro Peixoto (Nanete), tia de Braúlio de Castro, que atualmente está morando na Espanha tem 85 anos e nunca esqueceu seu torrão natal

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