Festival de Cannes se equilibra entre as grandes produções e o cinema autoral

O longa-metragem Na estrada, de Walter Salles, é destaque na pequena participação brasileira



A cidade francesa se prepara para a abertura, amanhã, da 65ª edição do Festival de Cannes

Não há dúvidas quanto ao glamour da 65ª edição do Festival de Cannes. Nem mesmo que Walter Salles, na disputa da Palma de Ouro com seu Na estrada, promete atrair a atenção da torcida brasileira. Mas vale lembrar: o maior evento do mundo do cinema, que começa Nesta quarta-feira, vai muito além de desfiles no tapete vermelho, mostras oficiais e seus prêmios. É nas bordas que o cinema brasileiro tem mais espaço para lucrar.

Apesar da badalação tradicionalmente aparecer em primeiro plano, o festival realizado no Sul da França é um dos mais robustos encontros voltados para o mercado do cinema feitos no mundo. Assim, é a corrida de negócios que tende a ser frutífera, principalmente para produtoras nacionais e cineastas, que embarcam para tratar da parte mais árida da sétima arte: a viabilização econômica.

De olho nesse potencial, o programa Cinema do Brasil estará instalado na Croisette em um estande de 100 metros quadrados no Marché du Film. Ali estão previstas sessões exclusivas para as empresas distribuidoras e credenciadas de 10 filmes nacionais. Há desde longas que já conquistaram a audiência brasileira, como O palhaço, de Selton Mello, e Estamos juntos, de Toni Venturi, como produções ainda inéditas, como Disparos, de Juliana Reis, e Hora menos, de Frank Spano.

“É outro estágio, outra forma de estar no mercado. Acho que agora a responsabilidade de chamar a atenção está em nossas mãos”, acredita o diretor Marco Dutra. No ano passado, o longa dirigido por ele em parceria com Juliana Rojas foi um dos selecionados da mostra oficial Un certain regard. Este ano, a experiência da dupla em Cannes será totalmente diferente.

Primeiro porque o projeto de As boas maneiras, o novo longa, foi selecionado pelo Cinéfondation e eles ganharam uma residência artística em Paris. Desde março, Juliana divide um apartamento com outros cinco jovens cineastas do Irã, Coreia do Sul, Alemanha, Itália e Chile, bancados pelo festival. Este mês, Marco estará com ela trabalhando exclusivamente no desenvolvimento do roteiro. “Eles não fazem uma agenda para a gente. Nos dão base, condições para criar”, elogia o cineasta.

Hoje, eles vão juntos para Cannes e, sexta-feira, a dupla apresentará As boas maneiras para uma plateia formada por empresas interessadas na coprodução internacional. E tem mais: Juliana também faz parte da programação do 65º Festival de Cannes com o curta-metragem O duplo, dentro da 50ª Semana da crítica, uma das mostras paralelas.

“É um festival muito importante e respeitado. Se você tem um filme passando lá, as pessoas têm interesse em saber quais são seus próximos projetos”, diz Juliana. A primeira vez que ela esteve em Cannes foi em 2005. Desde então, já esteve quatro vezes e, inclusive, garantiu vida mais longa paraTrabalhar cansa. “Ele foi comprado por uma distribuidora internacional e atualmente está em cartaz em Paris”, conta. Mesmo experiente quando o assunto é o badalado evento francês, Juliana Rojas não arrisca qualquer palpite. A única coisa que espera é que seu filme seja entendido. “Sempre tenho curiosidade para ver como será recebido. Será a primeira exibição pública de O duplo”, diz.

Candidatos à Palma de Ouro


- The angels' share, de Ken Loach (Inglaterra)


- Mud, de Jeff Nichols (EUA)


- Da-reun na-ra-e-suh, de Sang-soo Hong (Coreia do Sul)


- Killing them softly, de Andrew Dominik (Nova Zelândia)


- Jagten, de Thomas Vinterberg (Dinamarca)


- Cosmópolis, de David Cronenberg (Canadá)


- Lawless, de John Hillcoat (Austrália)


- Na estrada, de Walter Salles (Brasil)


- Holy motors, de Leos Carax (França)


- The paperboy, de Lee Daniels (EUA)


- Vous n'avez encore rien vu, de Alain Resnais (França)


- De rouille et d'os, de Jacques Audiard (França)


- Do-nui mat, de Sang-soo Im (Coreia do Sul)


- V tumane, de Sergei Loznitsa (Ucrânia)


- Baad el Mawkeaa, de Yousry Nasrallah (Egito)


- Amour, de Michael Haneke (Áustria)


- Post tenebras lux, de Carlos Reygadas (México)


- Dupa dealuri, de Cristian Mungiu (Romênia)


- Paradies: Liebe, de Ulrich Seidl (Áustria)


- Like someone in love, de Abbas Kiarostami (Irã)





Brasil em Cannes
Oficial

Mostra competitiva


Dia 23 – Na estrada, de Walter Salles


Cannes Classics


Dia 21 – Xica da Silva, de


Cacá Diegues


Dia 22 – Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho


Filme homenagem


Dia 22 – A música segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos


lParalela


Quinzena dos realizadores


Dia 23 – Porcos raivosos, curta de Leonardo Sette e Isabel Penoni (PE)


Dia 24 – Os mortos-vivos, curta de Anita Rocha da Silveira (RJ)



Semana da Crítica


Dia 19 – O duplo, curta de Juliana Rojas (SP)


Disputa entre craques

Baseado no cultuado romance de Jack Kerouak, Na estrada é um dos 22 longas que disputam a Palma de Ouro. O páreo não é nada fácil para Walter Salles, já que a competição inclui trabalhos de veteranos que inclusive já têm o cobiçado prêmio em casa. O austríaco Michael Haneke, por exemplo, já venceu com Caché (2005) e A fita branca (2009) e está de volta com Amour (2012). Depois de ganhar em 2007 com 4 meses, 3 semanas e 2 dias, o romeno Cristian Mungiu comparece novamente com Beyond the hills.

Isso sem falar nos novos trabalhos de Abbas Kiarostami (Like someone in love), David Cronenberg (Cosmópolis), Ken Loach (The angels' share). Como o Brasil é um dos países homenageados em 2012, também integram a programação oficial A música segundo Tom Jobim (2011), de Nelson Pereira dos Santos, Cabra marcado para morrer (1984), de Eduardo Coutinho, e Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues.

“Isso não é só uma homenagem, mas também o reconhecimento da importância do cinema brasileiro no panorama internacional”, diz Cacá. O brasileiro embarca para a França com a missão de ficar de olho na produção dos novos realizadores. Ele foi escolhido para presidir o júri do Câmera D’Or, prêmio concedido a diretores estreantes. “É uma excelente oportunidade de ver o que acontece pelo mundo afora, quais as tendências mais novas no cinema. Mas não tenho nenhuma expectativa sobre o que vou ver, qual o estilo dominante, que filmes são esses”, comenta.

Para Cacá Diegues, o Festival de Cannes não nega o papel dos grandes eventos da área. “Os festivais existem como vitrines para que conheçamos os filmes uns dos outros, sobretudo aqueles que têm pouca chance de circular pelo mercado comercial do cinema, apesar de suas virtudes e qualidades. Cannes é o mais importante deles, aquele que mobiliza mais gente, mais filmes, mais novidades”, explica.

Na opinião de Marco Dutra, um dos méritos de Cannes é conseguir conciliar produções extremamente comerciais e seus opostos. “Acho que o papel dele é manter vivo o cinema mais investigativo e a diversidade. Mas isso também não quer dizer que são perfeitos”, aponta.

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