HISTÓRIA DE UM BEIJO



“Vou partir”, eu lhe disse. E ela chorou. Chorando

ainda mais dócil era e mais formosa ainda,

embora demonstrasse uma tristeza infinda

no meigo olhar esquivo em lágrimas brilhando.
Era uma tarde amena então, já quase finda…

A brisa, a suspirar, passava acariciando

a verde cabeleira alvoroçada e linda

de um arvoredo em flor, cheio de aves piando.
E tudo em derredor dava a impressão de choro:

a natureza inteira era um ingente coro

 a acompanhar-lhe o choro ingênuo de criança!
Mas quando eu afirmei não ser verdade aquilo

que dissera, ela em mim pôs um olhar tranquilo…

E deu-me, sorridente, um beijo – por vingança.


Dodó Félix
Bom Jardim, setembro/63

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